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Victor Brecheret é o artista emblemático da afirmação do Modernismo no Brasil. É um dado, talvez, único no mundo, a escultura como a base da construção revolucionária da linguagem contemporânea. Desde o Impressionismo, tomado como marco histórico, que a discussão sobre a representação da realidade, a discussão conceitual da arte, se passa a partir da área bidimensional. A liderança objetiva das revoluções estéticas desde o século passado pertence à pintura. Não é o caso brasileiro.

O Modernismo não começou na Semana de Arte Moderna de 1922. Mas foi a Semana que polarizou a questão entre a academia e o Modernismo e que tornou-se o ponto focal irradiador das novas idéias e, também, o alvo dos adversários. E, na Semana, a obra central, o que deu consistência à exposição de artes plásticas, foi a de Victor Brecheret, expressiva e monumental.

O mundo das idéias é o mundo das artes. Os conceitos informam e guiam a manifestação cultural. Mas o que diferencia a arte de outras formas de conhecimentos é que a idéia, o conceito, tem que ser experimentada deve transformar-se em forma. Aquém e além da forma, nós não temos arte, mas aproximações com a filosofia, sociologia, política, etc. Tudo extremamente importante, mas ainda distante do que seja arte. É evidente que a arte, como conhecimento, contém elementos do mundo social, incluídos aí a filosofia, sociologia, política, misticismo, mas que não são suficientes quando tomados isoladamente.

É nesse contexto, o da especialidade da arte, que a obra de Victor Brecheret torna-se o fundamento da participação artística no Modernismo. Sabemos que Victor Brecheret não é o primeiro modernista público. Antes dele, em 1913, Lasar Segall mostrou os seus trabalhos no Brasil. E provocou uma reação morna e amigável. O país não estava preparado para combatê-lo e, provavelmente, Segall não tinha o perfil ideal para ser o inimigo público numero um. Esse papel coube a Anita Malfatti. Em 1917, após estudos no exterior, a artista retorna ao Brasil e faz a sua primeira exposição, motivo de uma áspera critica de Monteiro Lobato que discute a identidade desse trabalho: mistificação ou paranóia.

Esse é o mais famoso texto do Modernismo brasileiro.È um artigo de combate, contrário ao proceder moderno. Monteiro Lobato que coloca as questões essenciais da afirmação ou negação do Modernismo, a dissolução da forma, o culto do narcisismo, os limites imprecisos entre arte e manifestação emocional e as facilidades e mistificações que o afastamento dos cânones pode trazer para a cultura. Invertido o sentido do que Monteiro Lobato afirma como verdade, teremos muito do ideário contemporâneo, ou seja, o narcisismo, o rompimento dos limites, a ênfase na emoção em detrimento da forma, a procura da desmaterialização da arte. Não é incomum na arte essa situação, de a critica apontar as supostas deficiências de um movimento cultural e estabelecer os parâmetros da nova proposta. O nome impressionismo, utilizado em tom irônico a partir do titulo de uma pintura de Claude Monet pelo jornalista Leroy, consagrou-se. O Cubismo também se origina de uma ironia do crítico Louis Vauxcelles.

Esse artigo de Monteiro Lobato, na época um dos mais influentes intelectuais brasileiros, possibilitou a arregimentação em torno das idéias modernistas, a defesa da artista vítima do violento artigo e a oposição entre os cânones acadêmicos e as propostas de vanguarda artísticas. E Anita Malfatti, à sua revelia, tornou-se a artista mártir do modernismo brasileiro.

Desse modo, de maneira discreta, no caso de Segall, de maneira estridente, no caso de Malfatti, os pioneiros do Modernismo já haviam apresentado publicamente as suas propostas. A Semana de 22 constelou essas questões e tornou-se símbolo dos novos tempos. Essa Semana tão decantada e que reunia artistas de expressão tradicional, como Graça Aranha, e outros que pretendiam novas linguagens, como Oswald de Andrade, ofereceu para meditação este dado único, no que toca às artes visuais, o de ter se apoiado na cultura.

O Impressionismo é movimento de pintores que apresentam a fluidez do mundo, a luz como personagem que revela a realidade e a falibilidade da percepção. É por isso que eles pintam o mesmo local varias vezes, do mesmo ângulo, mas em horas diferentes do dia. A luz revela novas realidades. O Divisionismo elabora com percepção retiniana, exige a participação do espectador e trabalha com a terceira cor, a que se forma nos cones da retina. O Fauvismo aproxima a emoção da representação, coloca a participação humana na própria formação do conceito, O Expressionismo transforma o sentimento no principal dado da arte e não apenas Vincent Van Gogh é representativo dessa postura extremada, mas pode ser mais fortemente entendido quando pensamos na conhecida obra de Edvard Munch, O Grito. O Suprematismo trata da forma e da ausência da forma. Kazimir Malevitch conta, em carta, da emoção da forma ausente. O Cubismo desloca a arte do ver para o que sabemos existir. Na bidimensionalidade da tela desdobra-se o objeto em todos os seus lados. A arte não do que vemos, mas do saber, o que sabemos existir. Neste brevíssimo percurso de um parágrafo, quase ao acaso, podemos ver que a arte do nosso tempo é revolucionada pela pintura.

Existem grandes escultores na nossa época. Dentre eles dois extraordinários mestres, o romeno Constantin Brancusi e o suíço Alberto Giacometti, até Gabo, Pevsner, Henry Moore. Mas eles não lideraram os movimentos culturais, a sua obra não se ofereceu como exemplo das transformações, ainda que o tempo tenha mostrado a grandeza e as profundas transformações que obras como as de Brancusi e Giacometti realizaram. Como símbolo dessa predominância da bidimensionalidade devemos observar as figuras femininas da primeira tela cubista, de 1907, Lês Demoiselles d`Avignon, de Pablo Picasso.O rosto de três das figuras são máscaras africanas. Ou seja, a forma esculpida transformando-se em pintura.

Os estudos sobre a semana de 22 e sobre o Modernismo acentuam, na absoluta maioria das vezes, o papel de Oswald de Andrade e a pintura de Tarsila do Amaral. Penso que esses dois personagens merecem o estudo e a atenção recebida, mesmo que uma atenção mais critica e menos adorativa contribuísse mais. Mas a omissão desse dado sobre a inédita importância do escultor Victor Brecheret precisa ser superada.

Nas ultimas décadas a escultura modificou-se muito.Ela desmaterializou-se, perdeu os contornos e, à semelhança da pintura, discutiu o seu próprio suporte. A arte, já não mais produtora de imagens, discuti a si mesma. Dessa maneira, o suporte da arte não necessita mais ser um retângulo ou uma pedra.O seu suporte está onde o artista o coloca. Assim, ela ocupou a própria terra, tornou-se apropriação de objetos industrializados ou um conjunto evanescente de partes articuladas entre si. Trata-se de uma confusão conceitual e terminológica. Indevidamente mistura-se objeto com escultura, manifestações espaciais com escultura. Essas realizações pertencem a outra categoria artística. Provavelmente este livro sobre Victor Brecheret não é o melhor lugar para discutir longamente essa situação.

Mas é importante assinalar, pois acredito que é, provavelmente, esse mal-entendido cultural que gera a volta do escultor a essa omissão histórica. Observe-se, igualmente, que enquanto a mídia e os circuitos oficiais da arte apresentam o fim da escultura ela continuou a ser feita e a presença dos escultores contemporâneos é dinâmica e participante, com a ocupação dos espaços públicos urbanos e a meditação permanente da forma tridimensional.

Ao contrario dessas pretensões, a escultura é concretitude. Ela não favorece a contemplação gratuita e rejeita a facilidade e o comprometimento fundado apenas na crença. A escultura torna o ser definido, demonstra uma realidade palpável, definida, tridimensional e obriga o olho do contemplador a circular a sua volta, a observar os seus contornos, conferir os seus limites, ater-se aos valores de luz e sombra, A escultura é uma expressão artística que só se permite abordar através da real participação, da cumplicidade sensorial, na vivência comum de uma experiência perspectiva. Pode ser dito, também, que a escultura é feita de organização. É uma construção. Mais do que qualquer outra técnica artística, ela exige de seus oficiantes a fidelidade ao material, à técnica ao saber artístico.A escultura desde sempre destina-se a ser síntese formal de sua época e não pode ser realizada sem conhecimento profundo da técnica e do saber artístico. Mais ainda, a escultura não consegue ser concebida sem o saber de sua época.

A vida de Victor Brecheret é uma linha reta, da vocação ao aprendizado, e a realização de um conjunto escultórico sem igual no país. Ele faz parte do pequeno grupo de artistas cuja obra pode definir o período no qual viveu. Entre os artistas brasileiros, a partir do modernismo, não há nenhum escultor que tenha uma obra tão ampla, influente, e que aponte caminhos e questões tão ricas e permanentes. Na sua obra tudo está em questão e é tema permanente: a ocupação do espaço urbano pela escultura; o oficio e o talento; as possibilidades da figuração contemporaneamente; a ligação da escultura atual com a escultura totêmica; o aprendizado do artista; o silêncio do artista ante o repúdio e a aprovação social; a escultura como testemunho históricos; os materiais e a atividade escultórica; a finalidade da escultura e a arte útil.Essas questões estão presentes, são atuais, ainda que o artista tenha morrido nos meados da década de 50, o que impressiona, no momento. É o emaranhado de desejos numa vida tão logicamente direcionada. Victor Brecheret era um homem silencioso. Os escultores do porte de Brecheret costumam ser desse jeito. Eles estão preocupados com grandes dimensões, a escala da monumentalidade e as suas proporções e, se isso não bastasse, eles são obrigados a pensar na resistência dos materiais, no seu comportamento e no financiamento dessa verdadeira construção. Os vocacionados para o ciclópico falam pouco. Os heróis das grandes gestas têm pouco tempo para tagarelas. Na sua juventude, mesmo que o seu destino não fosse claro, ele já era um individuo reservado. Como muitos jovens paulistas, freqüentava as aulas do Liceu de Artes e Ofícios, caminho seguro para artistas, artesãos sofisticados, industriais cujos produtos exigissem desenho e qualidade. Aos 16 anos encontra, na rua Barão de Itapetininga, um papel impresso com uma imagem de Auguste Rodin.

O jovem é tomado de emoção, contempla obcecado a imagem de Rodin, pressente o universo que ampara essa imagem, a vida do escultor. O descortino de um novo mundo, De maneira atabalhoada, ele contempla a imagem de Rodin e de seu destino. Ele está fulminado pela iluminação. A percepção do próprio destino, a consciência da missão, o sentido trágico da vocação, tem esse caráter terrificante.Victor Brecheret encontra num papel, numa rua do centro de São Paulo, a sua identidade e o seu destino.

Há considerações a fazer. A família não tem grandes recursos, Victor Brecheret, precocemente amadurecido para a época e a idade, como acontece com os introvertidos, sabe muito bem disso. Ele é quieto, concentrado em seus pensamentos, e é possível que a família tenha se espantado com a manifestação clara do seu desejo. E é possível que Victor Brecheret tenha se espantado com a reação familiar.Os seus tios entregam ao jovem as suas economias para que ele possa viajar à Europa e fazer seu aprendizado do oficio de escultor. Victor por sua seriedade, aplicação e comedimento, desperta uma confiança de que não se dava conta. Essa história é relatada em depoimento de Brecheret, e por jornalistas e críticos e, de maneira completa, por Mario da Silva Brito no livro Antecedentes da Semana de Arte Moderna.

Movido pelo desejo de ser escultor Victor Brecheret parte de navio, em 1913, para Roma. Em 1919, ele volta ao Brasil e sente-se deslocado, não localiza os colegas do Liceu: “Fiquei um estrangeiro em minha própria terra...” O importante arquiteto Ramos de Azevedo, conhecido de escola,cede a ele uma sala no inconcluso Palácio das Industrias. É lá o ateliê em que Brecheret trabalha arduamente, em condições precárias, as suas formas de proporções e emoções monumentais. E é lá que o grupo central do Modernismo vai encontra-lo, por acaso, numa espécie de paródia juvenil, e se descobre que aquele desconhecido, esse escultor chamado Victor Brecheret, corresponde de maneira intensa ao desejo dos inquietos jovens. Havia uma exposição de maquetes para o futuro Movimento da Independência. O grupo de visitantes é informado de que lá em cima “...anda um escultor trabalhando, um tipo esquisitão de pouca prosa, e que faz estátuas enormes e estranhas...”(depoimento de O. Andrade e Brecheret, in M. S. Brito). Os amigos são Emiliano Di Cavalcanti, Hélios Seelinger, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia. Subiram para se divertir e encontraram um artista desconfiado, acostumado ao pouco entendimento de uma sociedade atrasada. E se deslumbraram com o trabalho de Brecheret. Era a obra que necessitavam, a base concreta para o seu desejo de Modernidade.

Menotti Del Picchia, em 15/1/1920, sob o pseudônimo de Hélios, publica uma informação crítica sobre Brecheret: “...mudo como um peixe...modesto como um coelho... não sei de talento mais original e fantasioso entre nossos artistas; a sua técnica, acepilhada no convivio dos mestres europeus, é destra e moderna; seus torsos michelangiolescos, se obedecem `a fatalidade realista dos moldes fisiológicos, espiritualizam-se no arrojo da sua estilização admirável, forrando-se às animalidades anatômicas, para criarem uma alma profunda, impressionante, soberba.

Oxalá São Paulo saiba aproveitar-lhe o gênio.”Um mês depois, foi a vez do temível Monteiro Lobato, na Revista do Brasil, reproduzindo as esculturas Despertar e Eva: “... Paremos juntos, e juntos admiremos tão soberba manifestação da grande arte. Admiremos sem reserva, que isso é arte de verdade, da boa, da grande, da que põe o espectador sério e, se é sensível, comovido.” Oswald de Andrade, sob o pseudônimo de Ivan, explica o entusiasmo pelo seu “descobrimento”...na Europa, Brecheret não se limitou apenas a estudar com aplicação as normais medicinais da escola, antes, possuído de uma clara inteligência e de uma força de cultura ainda rara nesse país de lenta evolução, observou as idéias modernas da escultura, comungou com elas e tornou-se por isso quase único em nosso meio. Brecheret é atual e vivo num entremez de bonecos que refletem o movimento artística europeu de 50 anos atrás”

Em louvor do novo, juntavam-se forças inesperadas, Lobato e Oswald.Neste artigo de Oswald de Andrade há uma afirmação de grande intuição sobre o procedimento e a maneira do artista que,três décadas depois, se confirmaria, a união do símbolo com o primitivo : “... Brecheret não reflete apenas as idéias modernas.Não é um espelho, é uma fonte viva de criação, impressionante na coerência com que junta à utilização eloqüente do símbolo a sadia inocência dos primitivos. Compreemdeu qual o valor da arcaização para que propendem esses escultores modernos...”

Nesse período talvez não houvesse muito a mostrar como obra modernista. Emiliano Di Cavalcanti era desenhista. Tarsila do Amaral ainda estava na Europa,no seu aprendizado. A própria Anita Malfatti, Pioneira na exposição pública do Modernismo, abatera-se muito com a crítica de lobato e produzia pouco, e a sua participação, certamente expressiva, repetia muitas das telas de 1917. A figura mais forte era a do pintor pernambucano Vicente do Rego Monteiro. Victor Brecheret, com um conjunto de 12 peças, foi a presença marcante nessa exposição. A sua obra vinha ao encontro de uma necessidade social. Alguns historiadores de arte estranham a exaltação dos modernistas em relação a Victor Brecheret. Atribuem às circunstâncias do momento. Ora, nós vemos que Brecheret foi personagem do romance Os Condenados, de Oswald de Andrade, e de O Homem e a Morte, de Menotti Del Picchia . E Mario de Andrade atribui o estado de espírito que fez surgir Paulicéia Desvairada ao contato com a obra de Brecheret. E é o próprio Mário de Andrade quem afirma que “... o movimento modernista tem, nos seus primórdios, dois fulcros. Um é Anita Malfatti. Outro, é, agora, Victor Brecheret”. Se o artista é capaz de se tornar personagem, habitar romances das principais figuras, desencadear com a sua obra o processo criativo de um escritor e intelectual do porte de Mario de Andrade e, além disso, oferece a obra –chave da eclosão modernista, podemos concluir que ele produziu as formas essências desse momento.

Na verdade, esse é o processo da arte.O artista formaliza. Ele traz o novo, aquilo que ainda não era sabido. Ele acrescenta um ente do espírito à sociedade humana. É essa visão nova que se chama arte. E essa forma descoberta e concretizada pelo artista é nova por até então não existir e, contudo, pode ser reconhecida porque os seus elementos constitutivos já existiam, de maneira fragmentária, nos seus contemporâneos.lê dá forma aos fragmentos. O artista cria o sentido. É justamente por dar forma ao informal, por trazer o caos para o mundo da forma, que o artista ao realizar o seu trabalho repete, na medida humana, o mito primeiro, o da criação do mundo. Ele transforma o caos em cosmo. E nós podemos reconhecer o seu trabalho porque ele é composto de elementos que fazem parte do nosso repertório, ainda como caos. O que Victor Brecheret realiza na sua época, observado através do depoimento de alguns de seus principais contemporâneos, Menotti Del Picchia, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Emiliano Di Cavalcanti, não é exatamente isso. Aqui havia o desejo modernista, haviam as idéias e elas esperavam encontrar o seu objeto.

A ideologia à espera do símbolo.

O modernismo e Victor Brecheret.

No final da década de 40, Victor Brecheret aproxima-se do que chamou de “motivo nacional”,de maneira diferente do havia feito no Monumento Às Bandeiras. Dessa vez, não é a saga da raça, o heróico caminho da construção nacional. Brecheret esculpe a Mãe Índia, em 1948, Índia e o peixe (1947/ 48), Veado Enrolado(1947 /48), Luta da Onça (1947 / 48 ), Índio e Suassuapara (1951), Luta dos Índios Kapalalos (1954).Esses trabalhos, entre outros, estão realizados em terracota, bronze e pedras com incisões. Em 1948, Brecheret afirmara:”...uma nova modalidade, uma outra escultura, uma escultura que seja legitimamente nossa...”. Resta saber, aqui, o que pode ser entendido por motivo nacional e por arte nossa. Parece mais no consenso, que nacional seria a saga dos bandeirantes na conquista de novas terras e extensão das fronteiras agrícolas e comerciais. Ou o desenvolvimento industrial. Ou, até mesmo, conquistas esportivas. O depoimentop de Victor Brecheret indica que ele pretende se aproximar de raízes autóctones que são, verdadeiramente, bastante distantes da idéia de nacionalidade brasileira. Nesse caso, o artista encontra nas civilizações pré-cabralinas uma fonte de vigor, estimulação e verdade existencial.Na minha opinião, a palavra-chave do depoimento do artista é “legitimamente”. A preocupação com a legitimidade “ é uma constante na arte moderna. A sociedade histórica, a qual pertencemos, tem inveja da autenticidade e legitimidade da arte produzida pelas sociedades míticas.

Nas sociedades míticas, de tempo circular e arte totêmica,a obra de arte recebe uma dupla autorização para ser realizada, da tribo e dos ancestrais ou entidades protetoras. Os instrumentos de trabalho são sagrados,o “artista” (nome impróprio)recebe o maná e, através dele, flui a energia criadora. A obra realizada, centro espiritual da comunidade,pertence aquele lugar, é única, dotada de aura. É, de todas as maneiras autêntica, representa a necessidade e a espiritualidade da comunidade, e o autor teve dupla delegação, o da terra e a do céu. Essa legitimidade absoluta causa inveja no artista da sociedade histórica, afastado do público, entregue à aventura do percurso individual, inseguro quanto a linguagem e pressionado pelo mercado que exige produtos novos e novas embalagens.

E a arte histórica, ainda que voltada para a discussão de sua própria natureza,afastada da representação de imagens,aspira a ser centro espiritual da humanidade.Mesmo no discurso do artista que pretende romper com a linguagem, enganar o circuito de arte, provocar um choque emocional e conceitual no público, observa-se uma atitude de convencimento, intervenção na vida social e na vida individual. Ele pretende modificar comportamentos e modos de ser. Essa vontade não disfarçada de intervir no organismo social encerra o desejo messiânico de criar uma obra que possa “salvar” os que não estão atentos.É a mesma atitude religiosa dos santos que recomendam que o homem”desperte”. Acrescente-se a isso que o próprio conceito de sociedade histórica está em modificação. Não mais o tempo linear, mas o relativo. A primeira das teorias da Relatividade é de 1905. O homem deixou de ser o senhor racional da natureza e transformou-se num ser interdependente e dotado de uma sombra (inconsciente) maior de que a consciência. Cai o mito da onipotência racional e dominadora. A modificação conceitual, para ficarmos apenas nessas, do tempo interior e do tempo físico, é determinante. E a sombra, o outro que está no homem, possibilita ver a existência do que é diferente de nós. É o principio da alteridade.

Não quero me estender demais nessa questão, mas são esses novos conceitos que possibilitam, cada vez mais, a valorização de outras civilizações diferentes da nossa. Alguns dos maiores artistas de nossa época estiveram muito perto das sociedades antigamente chamadas de primitivas, Constantin Brancusi, Henry Moore, Pablo Picasso, Juan Miro, Paul Klee, e utilizaram as suas formas no seu trabalho.Outros a exemplo de Pauk Gauguin, viverm fisicamente a sua experiência. O nosso Victor Brecheret também enveredou nessa seara. É possível que a terminologia e a fantasia da inocência não sejam as utilizadas hoje, mas a crônica de Oswald de Andrade é premonitória na sua essência.O que Brecheret buscava nessa aproximação com o autóctone. A legitimidade,como todo mundo, é certo. Mas parece-me que o seu encontro principal foi com o caráter mítico da arte totêmica. Ele, também, pelo seu lado, criou algumas formas de alto valor mítico. As pedras são circulares, não tem principio ou fim, devem ser analisadas de maneira total. Para observar corretamente essas pedras com incisões é necessário acurar o espírito e não os olhos. Uma espécie de ritual de aproximação.Nas sociedades míticas o tempo não é linear e não esta presente a idéia de progresso. O destino do homem é, na sua melhor performance, repetir o caminho dos ancestrais fundadores da comunidade, E, a cada vez, o tempo retorna ao zero e o caminho recomeça. Os astros e a terra fazem o seu percurso e retornam. O eterno retorno. Brecheret trabalha com essa percepção As pedras, o suporte, o mundo, na verdade, é circular, pode ser percorrido em sua totalidade e voltaremos ao ponto zero. A linguagem se estabelece nesse suporte e ela é uma incisão, um risco, uma história que se conta no próprio mundo. E a incisão na pedra é a narração e o que conduz a história, como não poderia ser de outra maneira, é uma história bastante simples de confrontos, oposições, luta de contrários, movimentação no espelho.O homem diante da natureza e o homem diante de si mesmo, a interação primordial com a alimentação e o mito (o que esta dentro e o que esta fora) e a relação com a espécie(maternidade, luta). As pedras, alem de serem a própria terra, podem ser a mensagem do céu.É por isso que algumas pedras,em vários lugares do mundo,são adoradas.Elas vieram do céu. E as pedras são a memória da humanidade. As civilizações desaparecem e as pedras permanecem, como nós temos exemplos em nosso continente, com a história dos mais e dos astecas.Alguma coisa pode comover mais um escultor do que essa memória humana através das pedras?. O encontro com a arte de outras civilizações equivale ao conhecimento de outras maneiras de ser. O artista amplia a sua consciência, descobre novos procedimentos, forças anímicas, mágicas, telúricas.Ele entra em contato com significações sociais e religiosas. E uma maneira de recolocar a arte e a produção do espírito no centro de sua atividade e construir, por sua vez, um antídoto contra a dicotomia moderna entre arte e público, arte de mercado e arte totêmica.

A pedra está na origem do nascimento do homem.O primeiro homem que pegou uma pedra e a utilizou como arma ou instrumento criou a civilização, a linguagem e a primeira obra de arte.Eletrouxe a pedra para o mundo da significação.É a mesma atitude que os orientais tem em relação à pedra achada e recolhida.Ela passa a ter a autoria de quem a encontrou. Antes era uma pedra no caminho. Depois, tornou-se um ente com identidade.

Há, ainda, a outra situação, a do artista que cria o jardim japonês. Ele procura uma pedra para o seu jardim. Só há uma pedra possível e essa tem lugar naquele espaço. Não importa o tempo necessário, a busca só se completará quando a pedra for encontrada. É uma única pedra, achada por um único homem que pertence a um só lugar.Nesse caso, a confecção do jardim é uma obra de arte e é tao, o caminho, um meio de aprimoramento de espírito.

Na atitude de Brecheret encontramos essa vontade da obra legitima, autentica, única. E esse é, igualmente, o caminho. É possível, então, ao artista encontrar o caminho da identidade,o que sempre esteve presente no trabalho de Brecheret, fortemente marcado por uma poética pessoal. O que, aliás, justiças as obras recorrentes, quando o artista retorna ou visita o que parecem fases superadas de sua própria obra.Brecheret busca, nesse caso, memórias de sua própria história para o seu reencontro consigo mesmo.

Victor Brecheret é conhecido como o escultor de obras públicas de São Paulo, devido a sua presença marcante na cidade. Entretanto essa evidência do artista se deve principalmente, a qualidade de seu trabalho, o que pode ser exemplificado pelas suas duas principais esculturas em espaço urbano, o Monumento às Bandeiras e a Mise au Tombeau, de 1923, no sepulcro da família Guedes Penteado, cemitério da Consolação. Ao todo,no espaço urbano, Brecheret tem sete obras, e outras dez que se somam a essas, em locais públicos mas reservados, tais como Palácio do Governo, capelas, bancos, Jockey Clube, etc. As duas principais esculturas já foram exaustivamente analisadas.

A Mise au Tombeau, pelo historiador Luiz Marques, no livro Brecheret; e o Monumento as Bandeiras, por Marta Rosseti Batista, no livro Bandeiras de Brecheret. Vale a pena registrar, como um fotografia de época, a história do Monumento as Bandeiras.Em 1920 preparava-se a comemoração da Independência e havia a intenção de um monumento. A exposição de maquetes no Palácio das Industrias, razão imediata do encontro dos modernistas com Brecheret, fazia parte desses preparativos. Washington Luis, presidente do Estado, quis realizar, também, um monumento aos bandeirantes. A comissõao encarregada de executar o monumento, custeado através de subscrição pública, foi composta por Monteiro Lobato, Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade. O projeto – “plasmar a maquette” – foi de Brecheret. No final de junho de 1920 Menotti Del Picchia, no Correio Paulistano, dá a primeira noticia. Em 28 de julho o projeto foi apresentado ao público na Casa Byington, na rua 15 de Novembro. O projeto é recebido com entusiasmo pelo público, pelos jornais e pelo presidente Washington Luis. Nesse meio tempo, a colônia portuguesa oferece à cidade um monumento com o mesmo tema, a saga bandeirantes, que deveria ser executado pelo escultor português Teixeira Lopes. Para evitar a polêmica surgida, enfrentada com exaltação nacionalista e xenófoba por Del Picchia – “...o monumento brasileiro deve ser integralmente brasileiro ...não se deve, pois, consentir mais que a alma e a técnica estranhas se fixem no bronze que imortalize as glórias da nossa raça” -, nenhum dos dois monumentos foi realizado pelo Estado. A maquete foi para a Pinacoteca do Estado. O Monumento às Bandeiras foi concluído em 1953.

O caminho de Victor Brecheret, como artista, é objetivo. Ele deseja aprender seu oficio e criar formas pessoais de expressão. Aos 16 anos chega a Roma e desiste de estudar na Escola de Belas-Artes. Não se acha preparado para ser admitido e passa a estudar com o escultor acadêmico Arturo Dazzi, freqüentar museus olhar monumentos e assistir, como ouvinte, as aulas da Escola. Em 1916, com 22 anos, ganha o primeiro lugar na Exposição Internacional de Belas Artes. Nessa época os escultores que o tocavam e serviam de modelo eram Mestrovic, Bourdelle e Rodin.

Em 1919, Brecheret retorna ao Brasil, monta um ateliê no Palácio das Indústrias e conhece o grupo modernista, com o qual tem a convivência já narrada. Em abril de 1921, Brecheret expõe a escultura Eva, já montada em Roma, na mesma Casa Byington. Trata-se de uma obra onde a influência de Auguste Rodin pode ser notada e que é aceita com adjetivação favorável. Com esta exposição, Brecheret obtém duas coisas: a obra é adquirida pela prefeitura e ele consegue um “pensionado”que lhe permite viajar e estudar na França. Em Paris, Brecheret ganha o primeiro prêmio no Salon d´Autonne, entre quatro mil candidatos. Lá Brecheret observa a luta cultural e convive com artistas como Picasso, Satie, Stravinski, Brancusi, Léger, Cocteau. Nesse tempo, expôs em vários salões franceses e viveu a vida artística de uma grande cidade. Na sua ausência se realiza a Semana de 22 e, através dos amigos, ele pôde apresentar 12 esculturas. Retorna ao Brasil e em l930 realiza a sua primeira exposição individual no país. A partir de então, mesmo aqui, onde a escultura tinha como principal mercado os monumentos públicos e arte sacra para cemitérios, Brecheret encontra o trabalho e as glórias possíveis.

Discute-se freqüentemente as influências e fontes do artista. Provavelmente, as fontes dos escultores do nosso século resumem-se a três ou quatro vertentes principais. Constantin Brancusi, por sua invenção fantástica, misticismo de suas figuras e, principalmente, a aproximação com o modo de proceder e sentir das sociedades míticas. Henry Moore, devido à monumentalidade das suas figuras, ao assunto cotidiano e a vitalização dos vazios, ensinamento que ele obteve na observação da escultura pré-colombiana. Gabo e Pevsner, pela ligação com o pensamento industrial, as idéias próximas ao desenho, a experiência cinética. Alberto Giocometti, devido ao universo existencial, desolado e expressivo do homem e ao caráter trágico de seu trabalho .Há alguns outros, é claro, nenhuma relação dessas é completa. Há os mestres particulares, os que se dedicam a situações especificas e aí quase não a limites de citações, chegando até os atuais, os que propõem modos de comunicação ou de contestação.

No caso de Victor Brecheret, é evidente que a concepção de Auguste Rodin foi influente na concepção corporal, no destaque das tensões dos volumes, na expressividade da forma. Como a presença de Bourdelle pode ser acentuada devido ao numero importante de obras de Brecheret no estilo geométrico do art déco. Entretanto, é tal a grandeza de Brecheret nessa linha, não apenas nos grandes monumentos como Bandeiras...e Miseau..., mas igualmente das peças menores, que custamos a crer numa influência direta, mas sim na confluência de estilos e propostas. Talvez, Maillol, de tanta presença no Brasil, possa ter contribuído à concepção de Brecheret das formas femininas, na maneira sensual e natural da postura, na harmonia dos volumes. Entretanto, a poética pessoal de Brecheret, em carias fases de sua história, se coloca de modo tão forte e impositivo que minimiza as influências diretas, salvo, é evidente, às que estão sujeito todos os artistas da nossa época. Acho que devemos situa-lo entre os escultores importantes de seu tempo. A recente safra de exposições, catálogos, estudos biográficos, ensaios críticos sobre Victor Brecheret demonstra que essa importância é percebida por um número crescentes de estudiosos.(Victor Brecheret - Modernista Brasileiro, MD - Comunicação e Editora de Arte)

JACOB KLINTOWITZ

Crítico de Arte